Aqui em São Paulo, lendo os jornais parece estar havendo a "rebelião das empregadas e das babás", que estão pedindo salários mais altos e exigindo novas condições de trabalho.
A rebelião é super bem vinda (tá até um pouco atrasada), mas mesmo concordando com as reivindicações eu ainda não dei conta de contratar uma faxineira. E não dei conta por uma limitação minha: como lidar com a contratação de uma pessoa para fazer um serviço que eu mesmo que deveria fazer, limpar a minha própria sujeira?
Nem sou boa de fazer faxina e nem gosto de fazer. Tem gente que diz que "adora" lavar prato, "adora" varrer. Não acredito. Fachada. É tudo chato, quando não chega a ser nojento, como lavar pano de chão e limpar o ralo da pia. A única coisa que faço compulsivamente é todos os dias dobrar os lençóis e arrumar a cama, porque me dá a ilusão de que a casa esteja arrumada quando a cama está feita. E só faço por questão de sobrevivência estética da casa, pq até isso acho chato. Louça eu lavo com medo de que acumule. Ou que falte copo limpo (só tenho3 que é pra nem dar tentação de poder usar vários sem lavar nenhum).
Mas mesmo achando chato fazer o serviço de casa, acho de um constrangimento absurdo ter uma pessoa dentro da minha casa pra fazer isso pra mim. Excessivamente íntimo. Na casa em que morava com minha família em Brasília havia 2 empregadas, uma fixa, outra 3dias por semana. Nada era mais contrangedor pra mim do que entrar na cozinha de casa, por medo que cada farelo gerado (e sou desastrada) fosse gerar a sensação de que criei serviço extra. Chegou-se ao ponto que o espaço era da empregada fixa, mais ninguém. Sugestão pra comida ou ajudar a fazer um prato pra almoço? Não cabia na relação (tive tentativas frustradas).
Íntimo, "cada um no seu lugar" e constrangedor. Nada pior do que almoçar em horários e lugares diferentes estando todos dentro da mesma casa. Não adiantava convidar, parecia algo previamente estabelecido. O pior cenário é uma empregada almoçar na mesa com a família e a outra ficar com vergonha e ir pro resquício de senzala chamado "quartinho". Nada mais constrangedor que a desigualdade estampada na intimidade.
Por essas e outras, resolvi não ter empregada quando me mudei pra Campinas. Moraria sozinha num lugar pequeno, pensei que não daria conta de fazer tanta bagunça assim para precisar de uma segunda pessoa para limpar a sujeira de uma só. E isso implica em facilitar a vida, nunca comprei recipientes para "servir" o almoço, mesmo quando tem visita. Panela já serve pra isso, salvo raros pratos específicos. Nada de comprar roupas que precisem ser "passadas" tb, costume meio absurdo pra mim (nem ferro tenho). "Aprendi" a descongelar a geladeira e limpar fogão, tarefas nunca antes feitas em Brasília, e a escolher produtos de limpeza mais específicos que água sanitária (genérico que gasto 1 litro por mês, para minha própria surpresa). Todas as minhas calças moleton ganharam bolinhas brancas na barra por conta desse consumo excessivo de água sanitária.
Mas depois de 1ano e meio dessa experiência, achei que pudesse precisar finalmente de uma profissional em impeza, para dar "a geral" que eu adio infinitamente: arrastar o fogão para limpar entre o fogão e pia e embaixo do armário da pia (tá feia a coisa). E fiquei 3 meses ensaiando contratar alguém para essa limpeza específica, mas sem coragem de convidar qualquer uma das faxineiras do prédio para fazer o serviço que eu sei que é frescura e preguiça minha não fazer.
Ontem, ouvi barulho no apto da frente, onde houve uma mudança recente e ainda não conheci o vizinho. Quase entrei na casa, vi uma mulher e fui me apresentar: 'Oi, você é a vizinha nova?". Não era, estava com um macacão de uniforme e disse que estava faxinando para o morador. Ela era da empresa de limpeza terceirizada da firma onde ele trabalhava e veio quebrar um galho.
Opa! uma trabalhadora assalariada que está complementando a renda! Demorei uns minutinhos criando coragem, voltei e fiz o convite: "Vc tem algum dia vago na semana?" Ela: "pode ser depois das 15?"
Seria perfeito! Apenas 3 horas de serviço em casa, eu pagaria uma diária completa (R$60 aqui em Campinas) e teria meu cantinho da cozinha limpo por alguém que por necessidade se tornou mais eficiente que eu nesse serviço.
Combinado.
Mas aí ela nem veio hoje (e esquecemos de trocar telefone ontem, não tinha como ela me avisar se aconteceu algo). Foi a chance para eu voltar a me perguntar se eu realmente deveria insistir em contratar esse tipo de serviço (um mimo para quem não tem filhos). O cantinho da bagunça tá logo ali, entre o fogão e pia. ê dúvida.